quarta-feira, 6 de maio de 2020

Teses sobre Educação e Ecossocialismo (Trabalho Provisório 01)

Teses sobre Educação e Ecossocialismo (Trabalho Provisório 01)

Teses sobre Educação e Ecossocialismo
É preciso transformar o mundo

1.      A destruição da natureza, a desestabilização dos ecossistemas e dos sistemas climáticos, o ecocídio e as mudanças climáticas que ameaçam nossa espécie, assim como outras, dinamizados pelo capitalismo já alcançaram proporções radicais e incontornáveis, e irreversíveis em diversos aspectos. Somente mudanças radicais antissistêmicas, anticapitalistas e ecossocialistas no sistema social global, com lutas e transformações igualmente radicais, são reais “alternativas”. “Se a raiz é o sistema capitalista, precisamos de alternativas antissistêmicas, ou seja, anticapitalistas – como o ecossocialismo, um socialismo ecológico que esteja à altura dos desafios do século XXI” (LOWY, Michael, 2020 p.12). A dimensão da situação e das tarefas dialoga com necessárias atualizações na teoria da revolução permanente. A revolução socialista mundial será ecossocialista ou não será revolução permanente.
2.      Atualização ecossocialista da revolução permanente. Modelo de socialismo e de desenvolvimento revolucionário socialista não-produtivista-capitalista. Apropriação coletiva dos meios de produção. Planejamento econômico democrático (confederação dos lugares). Transformação radical das forças produtivas – reestruturação da cultura material, do modo de vida, do psiquismo do proletariado, das relações de produção:

“(...) a) mudando suas fontes de energia (renováveis ao invés de combustíveis fósseis); b) reduzindo o consumo global de energia; c) reduzindo (‘decrescimento’) a produção de bens e eliminando atividades desnecessárias (publicidade) e pragas (pesticidas, armas de guerra); d) pondo um fim à obsolescência programada. O ecossocialismo também implica a transformação dos padrões de consumo, das formas de transporte, do planejamento urbano, do modo de vida. Em suma, é muito mais do que uma mudança nas formas de propriedade: é uma mudança civilizacional, baseada em valores de solidariedade, igualdade-liberdade (...) e respeito pela natureza. A civilização ecossocialista rompe com o produtivismo e o consumismo para favorecer a redução do tempo de trabalho e, portanto, a extensão do tempo livre dedicado a atividades sociais, políticas, lúdicas, artísticas, eróticas etc., etc. Marx chamou este objetivo de o ‘Reino da Liberdade’. A transição para o ecossocialismo requer um planejamento democrático, orientado por dois critérios: a satisfação das necessidades reais e o respeito ao equilíbrio ecológico do planeta. São as próprias pessoas – uma vez livres da propaganda e da obsessão consumista fabricadas pelo mercado capitalista – que decidirão, democraticamente, quais são as verdadeiras necessidades. O ecossocialismo é uma aposta na racionalidade democrática das classes populares” (LOWY, Michael, 2020, p.13);

Nestes sentidos, profundos e radicais, a revolução ecossocialista se conecta à dimensão cultural, portanto educacional, da revolução permanente.

3.      A revolução socialista é, também, uma revolução cultural nos “tempos longos”. Um processo de reestruturação da vida humana e das relações sociedade-natureza. A revolução da educação e das escolas constitui dimensão fundamental, como tarefa e como processo, na/da revolução (e transformação) social global. Parte-se das Teses da Revolução Permanente, de León Trotsky, teoria da revolução socialista dos séculos XX e XXI:

“8. (...) No curso de seu desenvolvimento, a revolução democrática se transforma diretamente em revolução socialista, tornando-se, pois, uma revolução permanente. 9. Em lugar de pôr fim à revolução, a conquista do poder pelo proletariado apenas a inaugura. A construção socialista só é concebível quando baseada na luta de classes em escala nacional e internacional. Dada a dominação decisiva das relações capitalistas na arena mundial, essa luta não pode deixar de acarretar erupções violentas: no interior, sob a forma de guerra civil; no exterior, sob a forma de guerra revolucionária. É nisso que consiste o caráter permanente da própria revolução socialista, quer se trate de um país atrasado que apenas acabou de realizar sua revolução democrática, quer se trate de um velho país capitalista que já passou por um longo período de democracia e parlamentarismo” (TROTSKY, León. O que é, afinal, a Revolução Permanente (Teses). In. TROTSKY, León. A Teoria da Revolução Permanente: Balanço e Perspectivas; A Revolução Permanente. São Paulo: Sundermann, 2011, p.314);

4.      A educação e a formação humana são aspectos da vida social e são dinamizadas pela luta de classes. Assim, a revolução na/da/com a educação, as artes, as ciências e as tecnologias são lutas pela “alma” da revolução social como processo global e integrado. É parte da reestruturação ecossocialista do modo de vida, da cultural material das sociedades federadas, das forças produtivas, das relações sociais e econômicas, das construções sociais culturais, das relações cidade-campo-floresta. A reestruturação ecossocialista, imprescindível, tem na educação e nas escolas motores indispensáveis, necessários.
5.      Apoiando-se no encontro das estratégias da revolução permanente (permanentismo e militantismo cultural), do construtivismo revolucionário (da LEF – Frente de Esquerda nas Artes) e do ecossocialismo revolucionário, a educação e a escola devem desdobrar, combinadamente, as tarefas de enriquecimento subjetivo do proletariado, difusão dos conhecimentos diversamente acumulados pela humanidade visando a “elevação cultural da massa proletária”, formação de uma subjetividade crítica e reestruturação do psiquismo do proletariado, e formação humana para a reorganização radical da cultura sócio-material, incluindo as relações de trabalho. Estas tarefas são partes necessárias da reestruturação ecossocialista da humanidade. A educação e a escola se articulam, assim, com a noção permanentista e construtivista de revolução como processo permanente de reordenamento social:

“(...) O programa elaborado pelos teóricos referidos, debatido e endossado por outros membros do movimento construtivista, era preciso: os artistas deveriam inserir-se nas fábricas visando reestruturar a produção e as relações de trabalho. Tratava-se, em suma, de combater a divisão social do trabalho reposta pela NEP e pelo esquema taylorista de produção, e alçar a vida cotidiana e o trabalho ao grau de inventividade e de domínio dos materiais alcançados historicamente pelo trabalho artístico ou, nas palavras de Tarabukin, da ‘maestria artística’ (TARABUKIN, 1977, p. 52). (...) A guinada produtivista do construtivismo soviético afirmava, assim, a primazia da revolução social sobre o projeto de modernização da URSS. Reafirmando que as posições de Tarabukin e Tretiakov eram fruto de um debate coletivo entre os artistas (...) os artistas se puseram, efetivamente, como vanguarda do movimento político, repondo no debate público a noção de que a revolução deve ser um processo permanente de reordenamento social (VILLELA, 2015, p.95-96-97);

              Nada deve ser como antes. Pensemos nas tarefas da educação e das escolas revolucionárias:

a)      Militantismo cultural e reestruturação da sociabilidade e do psiquismo, buscando a superação da passividade;

“Eram dois os inimigos declarados por Trotsky que o livro [Questões do Modo de Vida] procurava atingir: a sociabilidade nepista, caracterizada pelo individualismo e por um suposto psiquismo politicamente passivo, e o processo de burocratização do poder. O bolchevique posicionava-se, no livro, em prol da construção de uma nova sociabilidade como uma das tarefas cruciais a serem realizadas na luta contra o processo de burocratização.  Desta maneira, o principal tema desenvolvido nos ensaios (...) era a necessidade da construção de um ‘militantismo cultural’ (...) que abrangesse a totalidade dos aspectos e carências da vida material do proletariado russo. Ele definia tal ‘militantismo cultural’ como a atividade militante orientada à construção da classe operária, que, ‘pela primeira vez, constrói [a sociedade] para si e segundo seu próprio plano’ (TROTSKY, 2009, p. 54)” (VILLELA, 2015, p.90);

b)      Reestruturação do psiquismo, enriquecimento subjetivo, produção de subjetividade crítica e reestruturação da cultura material;

“(...) para a reestruturação do psiquismo do proletariado russo. (...) distinguir as questões centrais para a formulação de uma subjetividade crítica e de propor a elaboração concreta de um novo ambiente e de novos objetos que a pudessem promover. Ele elaborava um plano de combate fundamentado em duas linhas de ação (aparentemente contraditórios): a elaboração de rituais materialistas e a racionalização do modo de vida. (...) Em ‘Questões do modo de vida’, Trotsky aproximava-se do debate construtivista: os ‘detalhes’ que deveriam ser o objeto de uma intervenção militante eram os ‘detalhes’ do byt, da cultura material. A reestruturação do psiquismo do proletariado russo, assim, seria realizada mediante a reorganização espacial (que suscitaria uma nova forma de relação familiar) (...). A postura contemplativa, portanto, deveria ser superada através da reorganização da matéria” (VILLELA, 2015, p.90 e p.98);

c)      Difusão dos conhecimentos produzidos pela humanidade;

6.      A educação revolucionária e ecossocialista não objetiva a formação do “ser humano novo”, como já se advogou alhures, e sim objetiva a formação dos seres humanos concretos como lutadores, formação daqueles e daquelas que lutam e que deverão lutar pela construção da nova sociedade emancipada;

7.      Estruturação da educação revolucionária e ecossocialista: concepção geral de educação e escola como educação-escola integral e politécnica, atentando-se para a proposta triádica do marxismo revolucionário; reestruturação física e espacial-territorial da Rede e de cada escola; hermenêutica diatópica, diálogo e convivência de saberes e concepções pedagógicas na Rede e na escola; educação ambiental, do campo, indígena e quilombola em contexto urbano; redimensionamento dos espaços e tempos da escola; concepção e difusão da gestão democrática, como prática, radicalizando a democracia; ampliação do financiamento direto da escola como alicerce da autonomia; didática revolucionária de Paulo Freire;

Diagrama de Paulo Freire

Diogo Henrique A. de Oliveira. Professor de Geografia do IEPIC e do CE Joaquim Távora, Niterói. Coletivo Ocupação Educadora. Resistência/PSOL. Base do SEPE.

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