domingo, 28 de abril de 2019

Caos (1): Anotações de estudo sobre educação, escola, geografia e lutas sociais entre hegemonias e emancipações.

Havia chegado a uma terra de fragmentos,
perdida, um lugar de coisas para as quais
não havia palavras e também um lugar
de palavras que não correspondiam a coisa nenhuma
Paul Aster, Cidade de Vidro.

Cidade Fractal: Favelas do Rio de Janeiro.
A escola e a educação são convergências / divergências, encontros / desencontros, horizontalidades / verticalidades participantes do caos das sociedades urbanas capitalistas atuais. A escola é o lugar, também os nós (referentes a nodosidade), e a educação é o processo, o objeto, o objetivo e ao mesmo tempo a rede que estrutura espaços em espaços maiores. São múltiplos problemas (com certeza não elencaremos todos): condições humanas e individuais, a ver inclusive com o trabalho, d@s profissionais da educação, d@s estudantes e dos grupos humanos das comunidades escolares; estrutura (infraestrutura) das unidades escolares; propostas pedagógicas, currículos, didáticas, organização do trabalho pedagógica, escritos e inscritos (aqueles efetivamente realizados); políticas, programas e ações dos governos / governantes; a complexidade da(s) sociedade(s) humana(s) em que vivemos ontem e hoje. São múltiplas dimensões que compõem, ou deveriam compor, a escola e a educação (olharemos as escalas do Brasil, Rio de Janeiro e Niterói): Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio; Educação de Jovens e Adultos; Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva; Ensino Médio Integrado; Educação Integral e omnilateralidade; Politecnia; Educação do Campo; Educação Escolar Quilombola; Educação Escolar Indígena; Educação em espaços de privação de liberdade e sócio-educação; Educação Escolar de Crianças, Adolescentes e Jovens em situação de itinerância; Educação das relações étnico-raciais e antirracismo; Educação das questões de gênero, anti-machismo e anti-LGBTfobia; Educação Ambiental; Educação em Direitos Humanos; Educação, Comunicações e Novas Tecnologias Informáticas.

Convergência de crises?
Impossível, para nós, não pensar a partir de um olhar histórico-geográfico, ou geohistórico. Há uma convergência de crises: a crise estrutural do capital; o neoliberalismo, os choques econômicos e os ajustes estruturais do capital-globalização; a precarização da vida e do trabalho e as crises urbanas e ambientais; a longa (des)estruturação da escola e da educação pública, uma crise histórica e as recentes reformas empresariais; há a (con)formação do precariado educacional, proletarização e precarização da vida e do trabalho d@s profissionais da educação pública e a multiplicação d@s precári@s; há os (des)caminhos dos sujeitos coletivos, foco no sindicalismo d@s profissionais da educação, em amplos sentidos; há os movimentos de luta de classes, espaços e contraespaços, espaços do capital e espaços de esperança, hegemonias e emancipações, distopias e utopias.

Cidade Fractal: Favela,
Impossível, para nós, não pensar a partir dos contatos entre o método marxista, da economia política, com a complexidade, teoria do caos, fractais e a uma visão geohistórica, espacial-temporal. O espaço é o corpo do tempo, pensamos. Vivemos em sociedades nacionais e urbanas, numa des-ordem mundializada. A cidade, planetarizada, é nó de irradiação e arrumação dos movimentos de des-re-territorializações do Estado-nação, é a cabeça geográfica dos processos, incluindo os quadros de aparelhos políticos dos governos, expressando também forte caráter de classe. A escola, na cidade, cuida da consolidação política: "Espalhadas pelas cidades do território nacional formado, as unidades escolares levam a população a culturalmente se unificar através de um mesmo padrão de leitura, de cálculo e de escrita, cristalizando simbólica e materialmente na mentalização de um só sentimento unitário de espaço e tempo" (MOREIRA, 2016, p.14-15). Porém, há contradições e fragmentações nas unidades, é caótico o processo. A educação é a rede das escolas, rede é como se arruma atualmente a vida social humana planetariamente, a rede hegemoniza a ordem espacial em relação às regiões. As redes na globalização capitalista rompem fronteiras, embaralham territorialidades, des-re-territorializam, e um exemplo das redes é justamente a educação-escola. O mundo da globalização capitalista possui forte densidade social, é composto por um tecido espacial diferenciado e unificado planetariamente, caótico, mudando constantemente os conteúdos dos lugares, mudando constantemente as contiguidades (horizontalidades) e os processos de reticulações (verticalidades) que compõem os lugares, (re)criando hierarquias de inclusão-exclusão, mundialização e localização, inserção ou não inserção em redes de produção de cultura/poder, produção/poder. As escolas são os lugares, espaços das sínteses caóticas, assim como as cidades das quais fazem parte. O lugar é fragmentário na globalização atual, o lugar é mundializado, lugares incluem lugares outros.

Cidade Fractal: decadência.
Importante pensar sobre as práticas espaciais para pensar geohistoricamente os problemas da escola, da educação, da cidade, das lutas sociais da educação. A construção geográfica das sociedades humanas é resultado das práticas espaciais. Há três fases do processo de construção geográfica: 1) Montagem; 2) Desenvolvimento; 3) Desdobramento. Cada fase com suas práticas. 1) Montagem: 1.1. Seletividade; 2) Desenvolvimento: 2.1. Tecnificação; 2.2. Diversidade; 2.3. Unidade; 2.4. Tensão: contradição alteridade-centralidade; contradição unidade-diversidade; contradição homogenia-heterogenia; contradição identidade-diferença; 2.5. Hegemonia e coabitação; 2.6. Recortamento e território; 2.7. Escala; 2.8. Regulação e reprodutibilidade; 3) Desdobramento: 3.1. Mobilidade; 3.2. Compressão; 3.3. Urbanização; 3.4. Fluidificação; 3.5. Hibridismo; 3.6. Sociodensificação; 3.7. Reestruturação. Impossível não pensar o espaço, o lugar, as redes, seus processos e interconexões, estruturações complexas, e a cidade, a educação e a escola, as lutas sociais da educação inclusive, a partir das reflexões sobre o espaço. Espaços vetoriais, topológicos, fractais. As imagens falam geohistoricamente:

Ilustração artística de um espaço vetorial.

A base vetorial que gera um espaço tridimensional é formada por três vetores que são unidades básicas e linearmente independentes entre si.

(...) um grafo, onde os vértices são as diferentes partes do espaço de Hilbert, e as bordas são ponderadas pela distância emergente entre eles.

Para pensar: Conexões, processos, caminhos, histórias, estruturas, relações.

Paisagem de um espaço-estado topológico.

Para pensar: convergência, conexidade e continuidade.

A estrutura de nossas cidades é uma representação de um modelo fractal.

A cidade incerta, 2010, acrílico sobre a tela. Nadir Afonso. Período Fractal.

Artista cria cidade de civilização avançada a partir de fractais.

E nós não fazemos nada, nada, nada
Nada além
Além do mito
Que limita o infinito
Sobre a política e a luta social da educação. Fazer política passou a ser a construção de um grande arco de alianças ao redor da entrada em rede a partir dos lugares. Lutas sociais ensaiam mudanças concretas ou potências de mudanças. Movimentos de contraespaço, espaços de esperança, reais ou projetados. E o projeto é tão importante quanto a realidade, por ser um via-a-ser. Vejamos a multiescalaridade inerente às mudanças: uma escola, redes de educação, sindicato. É preciso pensar a partir do poder dos lugares e das redes. Sobre o poder do lugar, anotações: pela horizontalidade, o lugar aglutina em regiões os elementos contíguos; pela verticalidade, o lugar insere as contiguidades no fluxo de informações das redes globais, hegemônicas ou, no caso, não-hegemônicas; a acessibilidade às informações é o dado integrador ou excluidor de homens e mulheres nas redes dos espaços / contraespaços, estes homens e mulheres habitem ou não a mesma proximidade.


Referências:

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BRASIL, Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, Diretoria de Currículos e Educação Integral. Brasília: MEC, SEB, DICEI, 2013. 562 páginas.
BRÜSEKE, Franz Josef. Caos e ordem na teoria sociológica. Disponível em: http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_22/rbcs22_07.htm (Acessado em 28/04/2019).
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DAVIS, Mike. Cidade de Quartzo: Escavando o futuro de Los Angeles. São Paulo: Boitempo, 2009 (1a edição).
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MARQUES, Mara Lúcia e FERREIRA, Marcos César. Aplicação da dimensão fractal para o estudo da morfologia urbana da região metropolitana de São Paulo (mimeo).
MOREIRA, Ruy. A formação espacial. In. A Geografia do espaço-mundo: Conflitos e superações no espaço do capital, p.13-20. Rio de Janeiro: Consequência, 2016.
MOREIRA, Ruy. Teses para uma Geografia do Trabalho. In. A Geografia do espaço-mundo: Conflitos e superações no espaço do capital, p.13-20. Rio de Janeiro: Consequência, 2016.
MOREIRA, Ruy. As categorias espaciais da construção geográfica das sociedades. In. Pensar e Ser em Geografia, p.81-104. Rio de Janeiro: Contexto, 2007.
MOREIRA, Ruy. O tempo e a a forma: a sociedade e suas formas de espaço no tempo. In. Revista Ciência Geográfica, v. IV, n.9, p.04-10. São Paulo: AGB-Bauru, 1998.
MOREIRA, Ruy. Da região à rede e ao lugar: A nova realidade e o novo olhar sobre o mundo. In. Revista Ciência Geográfica, v. III, n.6, p.01-11. São Paulo: AGB-Bauru, 1997.
PAIVA, Angela Randolpho e BURGOS, Marcelo Baumann (orgs.). A escola e a favela. Rio de Janeiro: Pallas Editora e Editora PUC-Rio, 2009.

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